domingo, 28 de junho de 2009

Memória

Xênia de Castro Barbosa
Refletir sobre a Memória é relevante na medida em que orienta nosso posicionamento no mundo, configura nosso Eu e permite a elaboração de identidades pessoais e coletivas.
O ato de narrar é essencialmente recordar e recriar experiências, atribuindo-lhes valores à luz do Presente, das crenças, ideologias e necessidades que ele comporta.
Memória é concebida como conjunto de impressões, imagens, lembranças e experiências que se reatualizam através da linguagem[1]. Tem como suporte a “vida vivida” e a vida sonhada e tanto em suas versões individuais, quanto coletiva, é algo em constante construção, inacabado, sujeito a reformulações. Essas versões da memória encontram-se freqüentemente em disputa, o que conduz a novas reescritas da História e do Poder.
Por uma perspectiva encontram-se as instâncias reguladoras, preservadoras e construtoras da Memória Oficial, e por outra, discursos variados e divergentes que se expressam inclusive pelo silêncio. Constata-se a existência de experiências singulares marcantes, bem como maneiras peculiares de vivenciar os fatos que se contrapõem aos discursos dominantes sobre o passado e exigem nova negociação. Essa memória “subterrânea”, ocultada pela dominante, “quando emerge e invade o espaço público traz à tona reivindicações múltiplas e imprevisíveis a essa disputa da memória” [2]. As entrevistas realizadas com famílias de Itapecerica da Serra (SP) e de Porto Velho (RO), por ocasião de minha pesquisa de Mestrado (Experiências de Moradia:história oral de vida familiar) são ilustrativas de tal afirmação. Mais do que um lugar para morar, reivindicam reforma urbana e um lugar na historiografia:

Estou no MTST desde a época da ocupação Chico Mendes, que desencadeou uma luta muito grande por reforma urbana nessa região de Taboão da Serra, Itapecerica da Serra. (Marcos)

"Acho importante esse tipo de trabalho baseado na história de vida de pessoas como eu, porque até hoje o que está na história, nos livros e é ensinado para os estudantes no colégio é que o Brasil foi construído por homens brancos de origem européia. Cadê as mulheres nessa história? Cadê os negros? Por que os índios não aparecem? Não somos a minoria - como eles falam e querem fazer a gente acreditar - e esse país foi feito com o nosso trabalho, com os nossos esforços e isso precisa ser conhecido e valorizado! A gente tem uma experiência de vida para contar, uma experiência de sobrevivência e trabalho. No meu caso não foi uma experiência muito boa". (Maria da Paixão).

O trecho acima destacado da narrativa do Marcos remete a um projeto político complexo, que vai além do imediatismo das necessidades - como ter uma casa, por exemplo - e disputa poder em espaços públicos, mediante atos e passeatas. Remete-nos também à questão do pertencimento e da identidade. O excerto do texto de Maria da Paixão questiona um modelo de historiografia que retrata uma ideologia elitista de graves conseqüências para a classe trabalhadora em geral, e para os indivíduos que compõem as denominadas “minorias étnicas” ou de “gênero inferior”, e nos coloca diante também da polêmica existente entre História e Memória. Polêmica que, diga-se de passagem, passou a vigorar a partir do Iluminismo, com seus ideais de ciência e verdade, já que na Antiguidade a História e a Memória andavam juntas e a segunda, expressa em testemunhos orais era o cerne da primeira.
A História, a partir de meados do século XX tem ampliado seus objetos e metodologias de pesquisa e aceitado a “heterologia como missão”. No lugar de uma história tradicional, imbuída da idéia de progresso e que rejeita tudo o que se opõe ou escapa à lógica linear, acomoda-se uma história “volúvel e caprichosa”, mutante, inquieta perante aquilo que a história dos fatos consumados, do fim definido, da rígida razão formal ou dialética, excluía: a presença de outros atores, de outras histórias e narrativas, a necessidade de buscar outras partes, não para explicá-las à luz do já sabido ou antevisto, mas para compreendê-las e interpretá-las em sua experiência e historicidade[3]No encalço desse novo posicionamento uma dada concepção de história oral[4] tem colaborado com essa História que pouco a pouco se mostra “fruto de múltiplos temas e focos narrativos”[5], e para além disso, tem se constituído em um “Sistema”, onde não é mais somente a parte procedimental, mas toda a articulação que compreende desde a elaboração do projeto até a construção de uma interpretação própria[6]. Esta história oral aponta para pelo menos dois caminhos: um que se volta para a formulação de políticas públicas como imperativo ético da relação com os colaboradores, e outro, atento a questões relativas ao texto e à narratividade, construindo sua dimensão política em outra esfera, na da consciência do Eu que se expressa na narração de sua experiência de vida, e por meio dela consegue dar sentido à sua existência[7]. Ambos os caminhos não excluem a preocupação com as questões da memória, da identidade, da subjetividade e tem constituído um núcleo conceitual e procedimental específico acerca desses elementos, que se diferencia do elaborado pelas Ciências Sociais, pela Psicologia e Psicanálise.
[1]KOTRE, John. LUVAS BRANCAS: COMO CRIAMOS A NÓS MESMOS ATRAVÉS DA MEMÓRIA. São Paulo: Mandarim, 1997.
[2] POLLAK, Michael. MEMÓRIA, ESQUECIMENTO, SILÊNCIO. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 2, n.3, 1989, p.3-15.
[3] PINTO, Júlio Pimentel. A LEITURA E SEUS LUGARES. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
[4] Refiro-me a história oral desenvolvida pelo professor José Carlos Sebe Bom Meihy, junto ao Núcleo de Estudos em História Oral.
[5] PINTO, op. cit.
[6] BARBOSA, op. cit.
[7] BARBOSA, op.cit.

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