domingo, 28 de junho de 2009

Modernidade e Experiência

Xênia de Castro Barbosa

Este ensaio é síntese de reflexão incitada pelo curso a Dimensão Cultural das Práticas Urbanas, realizado no segundo semestre de 2007 na Universidade de São Paulo. Nele busco colocar em diálogo a visão de determinados pensadores, como Walter Benjamin, Marshall Berman, Teresa Caldeira e José Guilherme Magnani, que possuem trabalhos e metodologias específicas de investigação da Modernidade e de seu fenômeno a meu ver mais instigante: a cidade e as novas experiências que dela resultam e nela se localizam. Coloco-me, desta forma, como mediadora desse diálogo, dessa “fala” entre pessoas de opiniões muitas vezes divergentes, mais como citadina e cidadã do que como pesquisadora do assunto, até porque sou iniciante na área.
Trago mais questões do que respostas e apenas uma convicção: a de que somente pelo estudo paciente e detalhado das práticas dos diversos grupos que compõem a cidade é possível esboçar uma compreensão de seu todo, já que ela se dá na articulação entre as condições materiais objetivas, de ordem macro-estrutural, e a vida, as estratégias e o conhecimento acumulado dos atores sociais que tecem suas histórias nesse contexto, referenciados sim por ele, mas com a capacidade de subvertê-lo mediante novos e variados processos de apropriação dos espaços.
Modernidade e Experiência serão tratadas aqui de forma conjunta, pois as percebo como um fenômeno no qual uma parte atua na construção da outra, sem se sobrepor, dialeticamente.
Apesar de haver vasta quantidade de trabalhos que discutem a temática de interesse desse texto, tanto nas áreas das Ciências Sociais e da Antropologia, como na História, na Psicologia, na Geografia, na Arquitetura e nas Letras, decidi escrever sobre ela porque considero isso um exercício necessário e importante para a pesquisa que desenvolvo: Cidade e Memória, que procura conhecer por meio de entrevista de história oral de vida de família[1] realizadas com trabalhadores e trabalhadoras sem-teto militantes do MTST[2].
Sobre Modernidade e Experiência

“o que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo”
(Engenheiros do Hawaii)

Apesar de cidades terem existido desde a antiguidade e de muitas nos terem legado registros de intensas atividades culturais, religiosas, políticas e mesmo comerciais, como Tenochtitlám, no Planalto Mexicano, que na época da invasão espanhola contava com cerca de um milhão de habitantes, a Modernidade, modo de vida originário da Europa tem como substrato o renascimento urbano ocorrido na Baixa Idade Média[3], por ocasião de mudanças internas ao Feudalismo, como o fim dos conflitos contra os invasores “bárbaros” (vikings e magiares), que possibilitou significativo crescimento demográfico e aperfeiçoamento das técnicas agrícolas para o aumento da produção de alimentos, cujos excedentes passaram a ser comercializados nas antigas regiões de feiras e junto a edificações fortificadas, como castelos e mosteiros - o que acabou gerando uma nova classe social, a burguesia, bem como da expansão marítima, favorecida pela centralização política e de movimentos históricos como o Renascimento do século XV, que ao abandonar as explicações sobrenaturais dos fenômenos, típicas da Idade Média, e desenvolver análises centradas na razão humana, estabeleceu as bases da ciência moderna, o Iluminismo, que alcançou seu ápice no XVIII e conferiu nova dinâmica ao projeto antropocêntrico e racionalista iniciado no Renascimento. Somado a isso a Revolução Industrial do final do século XVIII, que se estende até os dias de hoje, visto que as inovações tecnológicas e atualmente, as informacionais, não cessam.
É preciso destacar que como resultantes desse processo não temos apenas “artefatos curiosos” ou “facilitadores da vida moderna”, mas novas relações sociais, novas relações entre capital e trabalho, novo modo de produção e que para um grande número de pessoas esse processo de modernização não deixou suas vidas mais fáceis e nem ofereceu as condições necessárias para que pudessem desfrutar de modo completo (ou pelo menos, do modo desejável) de seus benefícios culturais (sejam eles materiais e simbólicos). Este “caso” pode ser uma das interpretações possíveis da epígrafe desse texto: a modernidade é um sonho muito antigo, cultivado de longa data por muitos, mas que ainda não se realizou para eles visto que estão apenas parcialmente inseridos na paisagem moderna, como seu refugo, como elementos de sua contradição, trabalhadores reificados, exército de reserva ou como sujeitos que atuam politicamente na busca de um “lugar sob a luz” e mesmo na busca da transformação desse cenário. As outras faces da Modernidade são a aceleração do tempo, nova relação com o espaço, grande produção (e consumo) de mercadorias, que já entram no mercado com a obsolescência programada, aparente caos, fragmentação e volatilização dos valores morais, o que conduz nossa reflexão a outra dimensão social que se altera profundamente com esse quadro social: a experiência.
Experiência aqui é entendida como a capacidade de vivenciar e sentir as situações e acontecimentos. Diferente da concepção que se tem dela na racionalidade pura ou intelectual aqui a experiência é entendida como “empiria” e está ligada à memória e à linguagem. O trabalho dessas duas interfaces constituintes do humano, decodifica essas experiências e as expressam por meio de narrativas (orais, escritas, gestuais, plásticas, virtuais), explicando-as, tornado-as inteligível, aceitas, recusadas ou re-inventado-as conforme as necessidades do narrador no momento da narração. Contudo, Valter Benjamin[4] alerta para o fato de que certos acontecimentos, como as Guerras Mundiais e o surgimento do Romance Moderno, estariam levando a uma perda da habilidade de comunicar experiências, ouvi-las e dar-lhes continuidade. Não que haja experiências inenarráveis ou impossíveis de serem apreendidas, mas porque a Modernidade instaurou uma forma de existência, veloz e centrada no indivíduo, na qual não temos o despojamento de antes para aprender com o outro (queremos viver por nossa própria conta, “pagar para ver”), e nem o tempo suficiente para a reflexão sobre nossas experiências e as que ouvimos e lemos no dia-a-dia.
Benjamin, no texto acima referido aponta para a perda da capacidade de assimilar as experiências narradas por outros, efeito influenciado pelo caráter mecânico de nosso tempo que tem motivado o desaparecimento do narrador: Narrar histórias é sempre a arte de continuá-las contando e esta se perde quando as histórias já não são mais retidas. Perde-se porque já não se fia e tece enquanto elas são escutadas”[5]
A aceleração do tempo, ou melhor, a criação de outro, mecânico, marcado pelo relógio e não mais pela posição do sol – tempo do Capital, é decorrente da industrialização, do modo de produção capitalista e seu ímpeto universalizante. Esse tempo e essa nova forma de contá-lo vigoram hoje em todo o mundo, embora subsistam as temporalidades internas dos indivíduos (que na lógica da produção capitalista “não devem” ser vivenciadas nos momentos de trabalho, para não atrasar a produção, não provocar acidentes por “distração”, etc) e de grupos com pouco ou nenhum contato com tais elementos da cultura ocidental.
Outro reflexo da Modernidade em nosso comportamento, ainda com relação à questão experiência vincula-se ao papel desempenhado pelos meios de comunicação, que por estarem tão presentes em nossa vida e desenvolverem um trabalho de “filtragem” dos acontecimentos, estabelecendo o que deve e o que não deve ser conhecido e muitas vezes tentando “direcionar” a forma como tais eventos e notícias devem ser recebidos e interpretados pelo público, acaba por “substituir” a experiência. É comum vermos pessoas que moram, por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro e nunca foram ao Cristo Redentor, nunca vivenciaram tal experiência porque preferem “conhecê-lo” por meio das telenovelas ou das propagandas de turismo que passam na TV, ou pessoas que poderiam participar de um ato em praça pública a favor de “seus” interesses, mas ficam em casa aguardando a hora do noticiário para saber como foi, sem se posicionar política e moralmente, permitindo que sua postura seja interpretada pelos outros conforme as ideologias que professam. Assim, podemos concluir que a Modernidade trouxe inovações e benefícios, mas também contribuiu para a segregação da experiência, ou pelo menos, de determinadas experiências em certos indivíduos ou classes sociais.
Novas experiências também foram construídas em relação ao espaço. A partir das grandes navegações do século XV, realizadas principalmente pelos países ibéricos, as fronteiras do mundo foram ampliadas e seus mapas refeitos. Se antes disso o mundo era apenas o Mediterrâneo, os reinos europeus, Constantinopla e a parte do Oriente que se denominava genericamente de “Índias”, novos continentes, oceanos e rios foram integrados à cartografia, geografia e economia européia, por meio de colônias de exploração ou de povoamento e nos séculos XIX e XX, quando a maioria dessas colônias tem consolidada sua emancipação política, os espaços passaram a ser ocupados de forma diferente, tanto no campo como na cidade, mas como este trabalho tem como enfoque a cidade, trataremos apenas dela.
Transformações da cidade moderna e a vida das ruas

Nas grandes cidades, os terrenos situados em áreas favoráveis ao comércio e aos serviços, geralmente áreas centrais ou nobres, passaram a receber construções de edifícios de vários andares, como forma de “aproveitar” melhor aquele espaço. Em Paris, bairros inteiros foram demolidos para a abertura de bulevares, no Rio e Janeiro, as habitações dos pobres nas áreas centrais foram destruídas e seus moradores empurrados para os morros, em prol da modernização do centro da cidade, em São Paulo, foram as classes média e alta que se deslocaram, criando bairros como Higienópolis e Cidade Jardins, bens como condomínios de luxo fechados, que Teresa Caldeira conceituou como “enclaves fortificados”[6]. De acordo com a autora os enclaves fortificados têm gerado segregação espacial e social, pois a necessidade que seus moradores têm da cidade, de seus equipamentos e serviços é suprida, em grande parte, pela própria estrutura dos condomínios, que contam em sua infra-estrutura com lojas de conveniência, de venda de acessórios, confecções e artigos para decoração, drogarias, academias de ginástica, salão de beleza e de festas e “muitos metros quadrados de lazer e mata preservada”. Todavia, os habitantes desses luxuosos condomínios não vivem isolados ou convivem apenas entre “iguais”, pois trabalham fora, transportam filhos para a escola, fazem cursos em universidades, etc., e para manter a comodidade, aconchego e segurança da “casa-clube”, contam com o serviço de trabalhadores oriundos de bairros periféricos próximos ou distantes.
Mas se a Modernidade possui um berço, esse berço é a cidade de Paris do século XIX, governada por Georges Eugene Haussmann, seu prefeito, e por Napoleão III, seu imperador. E sem dúvida, seu maior pintor foi Baudelaire, que com sua pena traçou em verso e prosa a atmosfera da vida urbana, seus novos modos de se portar, seus fluxos, belezas e contrastes. Uma das atividades mais marcantes da modernização daquela cidade foi a construção de seus bulevares, que representou, segundo Marshall Berman[7], além de uma inovação urbanística e arquitetônica, uma estratégia política de apaziguamento das massas, pois empregaria milhares de trabalhadores em suas construções, gerariam outros milhares de empregos no setor privado, criariam largos corredores através dos quais as tropas de artilharia poderiam mover-se eficazmente contra as possíveis barricadas e revoltas populares e também uma estratégia de desenvolvimento econômico, que atrairia novos investidores e facilitaria o tráfego de pessoas e produtos. Pela primeira vez a cidade foi um espaço “aberto” a todos os seus habitantes, na medida em que as diferentes classes sociais puderam se ver frente a frente e sentir o incômodo e o fascínio desse encontro, retratado magistralmente no poema baudelaireano“os olhos dos pobres”[8] .É do mesmo autor outro poema[9] indicativo das mudanças de valores na vida moderna.
Para Berman a visão da vida moderna tende a se bifurcar em dois níveis: material e espiritual: algumas pessoas se dedicam ao ‘modernismo’, encarado como um puro espírito que se desenvolve em função de imperativos artísticos e intelectuais autônomos, e outras se situam na órbita da ‘modernização’, um complexo de estruturas e processos materiais – políticos, econômicos, sociais – que em princípio, uma vez encetados, se desenvolvem por conta própria, com pouca ou nenhuma interferência dos espíritos e das almas humanas. A primeira visão gerou importantes trabalhos no campo das artes, como os escritos de Baudelaire (poemas, ensaios, críticas a exposições de arte). A segunda promoveu uma forma de leitura da cidade que desconsidera a ação de seus sujeitos ou os apresenta de forma passiva, como massa amorfa de excluídos e marginalizados, como se a cidade fosse apenas produto de forças econômicas transnacionais, das elites, de lobbies políticos, variáveis demográficas, interesses imobiliários, dentre outros fatores de ordem macro, conforme argumenta Magnani[10]. Como contra-lócus desse tipo de estudo que faz uma apreensão generalista e muitas vezes superficial da cidade, utilizando-se de clichês da grande mídia e do que de fato se percebe ao olhar a cidade de forma rápida ou distante, uma vertente antropológica tem desenvolvido etnografias dos grupos que compõem a cidade, em suas várias regiões e demonstrado que a partir de um olhar “de perto e de dentro”[11] é possível reorganizar informações consideradas fragmentárias e compreender experiências urbanas aparentemente ilógicas e descontínuas, bem como o uso que os diversos grupos sociais fazem da cidade (trabalhadores ambulantes, empresários e funcionários do comércio ou de escritórios, jovens, idosos, pichadores, prostitutas, michês, migrantes e imigrantes, surdos, cegos, estudantes e não-estudantes, evangélicos e não-evangélicos), entre outros. A obra “Jovens na Metrópole”[12] é uma elucidativa apresentação dos circuitos de lazer e interação de jovens na cidade de São Paulo, realizada por meio de etnografias de agradável leitura.
As ruas das cidades modernas (diferente das ruas da cidade modernista)[13], especialmente as que não são fechadas ou se localizam em condomínio de entrada restrita, são espaços abertos à circulação de pessoas de todas as classes sociais e de desenvolvimento de uma série de atividades: fluxo de pessoas e veículos que simplesmente a percorrem vertical ou horizontalmente, trabalho, moradia, lazer, consumo (mesmo que mínimo para as pessoas de baixo poder aquisitivo ou desempregadas), tratamentos de saúde, aperfeiçoamento educacional, panfletagens partidárias, intervenções artísticas, encontros amorosos, crimes, especulação imobiliária e manifestações políticas populares. A vida das (nas) ruas na Modernidade conferiu aos citadinos nova subjetividade, novas identidades e novos modelos de relacionamento inter-pessoal. É comum nos sentirmos “atomizados” em meio a uma multidão de estranhos e para sentirmo-nos mais confortáveis e seguros nos “mimetizarmos” com as cores e estilos da maioria ou nos apegarmos a traços que possam nos distinguir da multidão e nos identificar com determinada “tribo”, com a qual temos afinidades, expressando assim, com nosso corpo, gestos e acessórios nossa “marca” no mundo.
Crise da Modernidade

“ontem faltou água, anteontem faltou luz,
teve torcida gritando quando a luz voltou”
(Legião Urbana)
Transformações nas esferas sociais, políticas e econômicas foram consideradas acontecimentos de longa duração até Idade Moderna, no que diz respeito à Europa.
A estrutura daquelas esferas era rígida e muitas gerações se sucederam sem notar mudanças na ordem estabelecida. A coroação, deposição e assassinatos de reis agitavam a vida das cortes, as guerras mobilizavam grande contingente de nobres, mas camponeses jamais seriam sagrados reis ou generais e seus trabalhos seguiam o curso imposto pela natureza e pelos parcos (se comparados aos nossos) recursos técnicos que possuíam, reis jamais se tornariam camponeses e nobres, mesmo que passassem por situação de crise financeira, teriam a proteção de seu suserano, “terceirizariam” os trabalhos e por sua vez seriam suseranos de outros. Claro que a Idade Moderna não se confunde com o que denominamos “modernidade” e que é apenas uma das bases sob a qual a qual esse modo de vida se desenvolveu, e que este possui características próprias que o diferem de tudo o que já existiu.
Vivemos, atualmente, um tempo no qual significativas mudanças nas instituições, e conseqüentemente nas sociedades, se desenvolvem de modo tão intenso, quase instantâneo que às vezes ainda nem terminamos de “processar” a informação anterior e já somos questionados sobre as novas. Dentre essas transformações estão coisas que nos sugerem uma nova era, não mais Moderna, mas Pós-moderna, como os avanços das tecnologias da informação, da robótica, da engenharia mecânica e da programação, as novas relações que delas derivam: trabalhos que podem ser desenvolvidos na própria residência do trabalhador, a “valorização” e comercialização de sua criatividade pelas grandes corporações, o “faça você mesmo”, os relacionamentos via Internet e uma economia centrada no consumo.
No campo político, guerras mundiais, polarização do mundo em dois blocos ideológicos (países socialistas e países capitalistas), corrida armamentista, derrocada do Socialismo e consolidação do Capitalismo como modo de produção hegemônico, exaltação das doutrinas liberais, e críticas contundentes aos danos que têm provocado nas periferias do capital, em particular, e ao planeta, de modo geral, indicam a crise do projeto da Modernidade e a urgência de se elaborar um novo, condizente com as especificidades do momento em que estamos. Mas que momento é este? Qual sua marca distintiva?
A primeira pergunta é com certeza mais difícil de se responder do que a segunda, porque para começar, não existe um consenso entre os estudiosos se ele é “moderno” ou “pós-moderno” e nem se o que se chama de pós-modernidade é algo genuinamente novo, com problemas específicos ou apenas uma continuação das potencialidades e conflitos que já estavam latentes na Modernidade.
Supondo que esses dois modos de vida coexistam (o moderno e o pós-moderno), não há, em relação a esses tipos de cidade, nenhum critério claro que as separem, todavia, de acordo com Sharon Zukin[14] algo mudou na maneira como organizamos o que vemos: o consumo visual do espaço e do tempo, que está simultaneamente abstraído da lógica da produção industrial, leva à dissolução das identidades espaciais tradicionais e à sua reconstituição sobre novas bases. Temos então espaços liminares, intersticiais, onde as fronteiras são incertas, variando conforme a perspectiva de seus usuários e construtores. Essas zonas de transição tanto podem ser objetos atraentes aos investimentos de uma economia de mercado, como podem ser espaço de segregação social e alvo de preconceitos ou de descaso dos poderes públicos local, estadual ou federal, como é o caso das ocupações urbanas do MTST em São Paulo, que não são favelas, porque têm um projeto político e organizativo diferenciado, mas também não são bairros do ponto de vista legal e nem possuem a estrutura e os equipamentos urbanos comum a eles. Falta água, energia elétrica, telefones públicos, creches, escolas, etc. Mas esta não a única paisagem urbana pós-moderna. Há que se destacar a comercialização de ideais, desejos e fantasias, que se expressam em condomínios de luxo que “recriam” um cenário campestre no meio da cidade grande, para os ricos nostálgicos de um passado bucólico que talvez jamais tenham vivenciado (o conhecem apenas por meio de livros, filmes e outras narrativas), ou que se expressam nos “mundos encantados” dos parques temáticos estilo Disney World.
As mudanças que percebemos em nível de instituições, como o enfraquecimento e/ou diminuição do campo de influência de algumas, como a Igreja, até a criação de novas, como o Estado-nação, atingem também as pessoas, como podemos perceber nessas novas formas de desejar o espaço e perceber o mundo ao redor, e se manifestam coletivamente. Tais mudanças são consideradas por muitos como o sinal do “novo tempo” e o sintoma da crise da Modernidade.
Independente de ser moderno ou pós-moderno e dos significado que cada corrente ideológica atribui a esses termos, não podemos esquecer que é a vida acontecendo, a vida das pessoas, a vida das cidades e que isso é “muito mais e muito menos” do que se pode dizer sobre elas.
Como o objetivo deste trabalho não foi encerrar o assunto “modernidade, experiência, cidade”, mas retomar questões discutidas anteriormente, refletir sobre elas e quem sabe suscitar algumas novas, gostaria que esse texto fosse visto não só como um exercício acadêmico com finalidade de nota – o que para mim nesse momento é fundamental - mas também como um desejo de diálogo que gostaria de manter com o NAU.
Referências Bibliográficas

BAUDELAIRE, Charles-Pierre. O SPLEEN DE PARIS. Ed. Imago, Rio de Janeiro, 1995.
BENJAMIN, Walter. O NARRADOR. MAGIA E TÉCNICA, ARTE E POLÍTICA. São Paulo, Ed. Brasiliense, vol. 01, 1987, pp. 197-221 (Obras Escolhidas).
BERMAN, Marshall. TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR. São Paulo, Ed. Companhia das Letras, 1986.
CALDEIRA, Teresa. CIDADE DE MUROS: CRIME , SEGREGAÇÃO E CIDADANIA EM SÃO PAULO. Ed. 34/EDUSP, 2000.
LE CORBUSIER. A CARTA DE ATENAS. São Paulo, Ed. Hucitec/EDUSP, 1989.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. DE PERTO E DE DENTRO: NOTAS PARA UMA ANTROPOLOGIA URBANA. RBCS, vol. 17, n.49, Junho de 2002.
MAGNANI, J. Guilherme C. e MANTESE, Bruna (orgs.). JOVENS NA METRÓPOLE. São Paulo, Ed. Terceiro Nome, 2007.
MEIHY, José Carlos Sebe Bom. MANUAL DE HISTÓRIA ORAL 5ª ed. São Paulo, Ed. Loyola, 2005.ZUKIN, Sharon. PAISAGENS URBANAS PÓS-MODERNAS. In: Antonio Arantes (org.): O espaço da diferença, Campinas, Papirus, 2000
[1] MEIHY (2005: p. 157).
[2] Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto. Este Movimento de caráter urbano possui no Estado de São Paulo seu âmbito de luta e em sua pauta constam a reivindicação de moradias populares e a reforma urbana.
[3] Datada entre o século XII e meados do século XV.
[4] BENJAMIN: 1980.
[5] (1980: p. 62)
[6] CALDEIRA, 2000.
[7] BERMAN, 1986.
[8] Spleen de Paris, n. 26)
[9] Spleen de Paris, n. 46)
[10] MAGNANI: 2002.
[11] MAGNANI: 2002.
[12] MAGNANI E MANTESE: 2007.
[13] A Carta e Atenas, documento resultante do 4◦CIAM (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna), que pode ser encontrada no site do IPHAN estabelece que nos projetos de zoneamento da cidade modernista a casa deverá estar separa da rua e que a circulação será feita por meio de vias de percurso lento para o uso de pedestres e de vias de percurso rápido para o uso de veículos e que haverá ruas específicas para cada tipo de atividade.
[14] 2000.

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